RAÇAS E VARIEDADES DE GALINHAS PARA AVICULTURA ORGÂNICA
Med. Vet. Flávio Figueiredo*
A avicultura teve um período inicial quando, em diversas partes do mundo, foram selecionadas populações de galinhas para atender necessidades diversas e específicas, muitas vezes ligadas a determinadas regiões e suas peculiaridades culturais (1800 a 1900). Neste período houve uma estruturação destas populações que acabaram por se consolidarem em “raças puras”. Como exemplo temos as raças Leghorn (mediterrânea), Sussex, Orpington e Cornish (Europa), Rhode Island Red (USA) Brahma e Cochinchina (Ásia).

Logo após a avicultura assume um caráter comercial (1930 a 1970), quando são estabelecidos sistemas de produção ao ar livre, os quais possuíam semelhanças com os sistemas de produção orgânicos de hoje. Surgiram então novas raças, oriundas de cruzamentos entre as raças antigas. Exemplos são a New Hampshire, a Plymouth, a Wyandotte e a Gigante Negro de Jersey, nas quais a produtividade, a precocidade, a docilidade, a capacidade de forrageamento e a rusticidade foram selecionados.

A partir de 1960 a avicultura se desenvolve como uma atividade intensiva, quando o acesso ao ambiente externo foi restringido até se constituir em sistemas totalmente fechados (“industriais”). Para estes sistemas foram selecionadas populações oriundas de cruzamentos das raças puras, mas que sofreram um processo drástico de seleção, formando linhagens com índices produtivos extraordinários. As principais raças utilizadas foram a Leghorn e a Rhode Island Red para produção de ovos e a Plymouth e a Cornish para produção de carne.

Raças puras de produção: Wyandotte, Orpington e New Hampshire e Sussex sendo criadas para utilização como reprodutores em sistemas ao ar livre
Atualmente encontramos diversas linhagens industriais que estão disponíveis no mercado para serem utilizadas na avicultura industrial e que se adaptam também a produção orgânica e sistemas ao ar livre, das quais destacamos as variedades Isa Brown para produção de ovos e Hendrix para produção de carne.

Com o retorno dos sistemas de produção ao ar livre, surgiram novas linhagens também baseadas no cruzamento de raças puras, criadas para atender a nova realidade destes sistemas. A genética SASSO na França a EMBRAPA no Brasil apresentam diversas variedades com este propósito, sendo opções interessantes e com viabilidade econômica para os sistemas de produção ao ar livre. Estas variedades estão disponíveis e podem ser utilizadas com sucesso na avicultura orgânica. ́
Ainda é importante considerar as raças autóctones, que foram selecionadas ao longo de anos em diversas regiões do mundo fixando características produtivas importantes e adaptadas as culturas regionais onde foram estabelecidas.
No Brasil é destaque a raça Canela-Preta oriunda de cruzamentos de raças trazidas por imigrantes no período colonial que sofreram isolamento genético que permitiu a manutenção de suas características até os dias atuais.

Contudo, as variedades hoje disponíveis para avicultura orgânica ainda deixam a desejar em alguns aspectos. A incapacidade de aproveitar satisfatoriamente os nutrientes contidos nos pastos e vegetais, a necessidade de alimentos com elevados conteúdos protéicos para viabilizar a produção, a baixa capacidade de forrageamento, e a baixa resliência são alguns exemplos de “gargalos” que podem ser superados.
Sem dúvida, as raças puras formadoras e as raças autóctones devem ser resgatadas e preservadas e ainda melhor estudadas, pois se constituem a base genética para seleção de novas populações para serem utilizadas na avicultura orgânica a qual preconiza em seus sistemas de produção o aproveitamento de alimentos alternativos, um baixo impacto ambiental, constante desafio ambiental e a ausência de tratamentos quimioterápicos.
- Flávio Figueiredo é Médico-Veterinário pela UFPEL, com Mestrado em Bioquímica pela UFRGS. Membro da Comissão de Pecuária Orgânica do CRMV/RS. Atualmente é produtor de ovos orgânicos. Contato: flaviofigueiredo@gmail.com





André Macke Franck – Médico Veterinário formado pela URCAMP- Bagé-RS, Extensionista Rural da EMATER-RS/ASCAR em Vale do Sol-RS, com Pós-Graduação em Agroecologia e Produção Orgânica- UERGS-RS. Coordenador do Grupo Técnico de Bovinocultura de Leite do Escritório Regional da EMATER-RS de Soledade-RS. Integrante da Comissão de Pecuária Orgânica do CRMV-RS. Integrante dos comitês de saúde & bem-estar e gestão & sistemas produtivos da FIL/IDF- Brasil (Fédération Internazionale du Lait-International Dairy Federation).
Luiz Carlos Demattê Filho – Médico Veterinário pela UNESP – Botucatu. CEO da Korin Agricultura e Meio Ambiente LTDA. Pós-doutorando na EAESP/FGV no Departamento de Gestão de Operações e Sustentabilidade. Mestrado em Zootecnia em Nutrição Animal pela UNESP – Botucatu. Presidente da Câmara Temática da Agricultura Orgânica – CTAO. Membro do Conselho Estratégico do Programa Nacional de Insumos Biológicos – CEPNBio
Marcia Monks Jantzen – Médica Veterinária pela UFPEL, Doutora em Ciência e Tecnologia Agroindustrial pela UFPEL e INIA-Espanha. Atualmente é Professor Associado na Faculdade de Veterinária e docente permanente do Programa de Pós-Gradução em Alimentos de Origem Animal (Mestrado Profissional), da UFRGS. Membro da CPORG-RS/ MAPA e da Comissão de Pecuária Orgânica no CRMV-RS.
Maria Helena Abreu – Médica veterinária pela UFV/Brasil com mestrado em Ciências Agrícolas na Georg-August-Universitaet em Goettingen/ Alemanha com o tema de pesquisa sobre Integração da agricultura com a bovinocultura de leite e Doutorado em “Agroforestería Tropical” (com o tema Sistemas Silvopastoris) no Centro Agronómico de Investigación y Enseñanza (CATIE)/ Costa Rica. Atual Professora Principal e especialista em Sistemas Silvopastoris Departamento de Produção Animal – Universidad Nacional Agraria La Molina, Lima, Perú.